Pascal Nicolas-Le Strat
Tradução de trabalho, para o português do Brasil, de Caia FITTIPALDI
[caia.fittipaldi@uol.com.br]
2008, outubro

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Pour consulter le texte en français: Un contre-pouvoir constituant

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Pour consulter le texte en anglais : A constituent counter-power

Contra-poder constituinte

Experimentações políticas: Introdução*

In NICOLAS-LE STRAT, Pascal (2008, outubro) "Expérimentations politiques", Fulenn, Paris


Como lutar, quando a linha de frente desdobra-se e multiplica-se? Não se dissolve nem desaparece, mas reforça-se, ao disseminar-se. Cada questão política emerge não importa onde, e de lugar algum em especial.

Toni Negri e Michael Hardt[1] chamaram a atenção para a evidência de que o Império é fortemente inclusivo; deixa de lado a dialética centro/periferia e apóia-se em delimitações ou fraturas em constante reformulação. As contradições englobam todas as formas de vida e de atividade, mas não de modo único ou unificado. As contradições, pontual mas fortemente localizadas, agem silenciosamente e sobem, em intensidade, muitas vezes brutal. O que vale em escala macro (imperial) vale também na escala (micro) da atividade de cada um. Ninguém mais pode dizer, hoje, onde acabam seu tempo ou seu local de trabalho.

Cada trabalhador incorpora seus objetivos e limitações de produção e delas jamais se separa; nunca mais se separará completamente delas. O sistema de exploração tira sua força da evidência de que o trabalho não tem centro e, correlativamente, da impossibilidade de o trabalhador construir qualquer externalidade, qualquer "fora" do trabalho. Cada tensão ou opressão, é vivida em toda a existência de cada um, sem que se possa saber onde se cristalizará ou se polarizará. Aquela tensão ou aquela opressão envolve o trabalhador como um fio que recobre cada 'pacote' de atividade e que pode romper-se ninguém sabe onde ou quando. Nesse livro, consideramos esse ponto metodológico.

Não há aqui qualquer nostalgia do tempo passado, quando os posicionamentos (de classe) anunciavam-se sempre bem claramente (embora muitas vezes cegamente), e quando as linhas de clivagem não eram vistas como ambivalentes, mesmo se, para isso, fosse preciso sufocar as dissenções políticas. Nas condições presentes, ninguém pode saber a priori quais serão as relações decisivas de força, em torno das quais se constituirão as questões, nem onde emergirão. Nenhuma posição (de classe) poderia gozar desse privilégio: privilégio de razão ou de lucidez, de potência antagônica ou de pertinência estratégica.

As lutas travam-se em múltiplos espaços, a partir dos mais diversos contextos. O que nos interessa aqui é essa mobilidade, essa reatividade dos antagonismos. Todas as resistências são a mesma resistência e não consideramos aqui qualquer hierarquia entre diferentes modos de resistir. Que a resistência desenvolva-se em escala macro ou em escala micro, que tenha a ver com as formas de vida ou de trabalho, que nasça do interior das instituições ou de modo mais autônomo, que tenha interesse social, artístico ou urbano, todas as formas de resistir têm de ser politicamente respeitadas pelo que são, pelo que construam, pelos processos nos quais nos engajem, pelo potencial de antagonismo que reservem, pela experiência de vida ou de trabalho à qual nos destinem.

Reivindicamos portanto, nesse livro, um princípio de simetria. Não se pode aceitar que uma experiência seja desqualificada antes mesmo de que se possa avaliar o alcance ou o significado dela, seja porque seria insuficientemente autônoma seja porque pareça inadmissivelmente reformista. "É inútil queimar as meninges para saber se uma proposta é reformista ou revolucionária; o que mais importa é saber se ela brota ou não de um processo constituinte”[2]

Houve tempo em que foi considerado de 'bom-tom' político construir hierarquizações entre terrenos de luta, como se algumas lutas implicassem 'mais avanço' que outras e, por isso, por essa 'necessidade', algumas lutas devessem prevalecer estrategicamente sobre outras. Felizmente, os anos 60 e 70 provaram que as lutas associadas às formas de vida (relações de sexo e de uso, sobretudo) equivalem às lutas no campo do trabalho. Essa equivalência democrática entre diferentes movimentos e resistências (esse princípio de simetria) é uma conquista política; e é coerente com o estágio atual do capitalismo, que já não demarca qualquer diferença decisiva entre o momento da produção e o momento da reprodução, o tempo de trabalho e o tempo de vida. A seu modo, o capitalismo demarcou o problema e não nos deixou alternativas, senão agir na mesma direção, abraçando todos os terrenos e suas contradições.

A questão portanto não é saber onde nascerão as próximas lutas e em que plano elas se constituirão, mas, sim, avaliar a capacidade – política, intelectual e sensível – de cada luta para fazer brotar novas formas de experiência e conduzir às questões politicamente determinantes, quer dizer, às questões que toquem na própria articulação dos dispositivos de dominação.

As experiências apresentadas nesse livro não são jamais exclusivamente negativas. De fato, "engajamentos que façam do poder que resiste um poder idêntico ou semelhante ao poder que oprime, não servem para nada."[3]

O contra-poder tem de ser necessariamente contra-poder constituinte.

As experimentações sociais e políticas têm de ser avaliadas desse duplo ponto de vista : como experiências que tornem (ou não) expressa e claramente legíveis as condições do antagonismo e como experiências que constituam (ou não) as bases de uma autonomia e de uma emancipação. Só interessam as experimentações sociais que 'respondam', inventivas e reativas, às formas contemporâneas da dominação. Interessam as experimentação que não visem a "tornar o poder melhor do que ele é, mas que visem a tornar visíveis os dispositivos ocultos, ao mesmo tempo em que constroem práticas de resistência."[4]

Judith Revel insiste fortemente nesse ponto, ao analisar as relações de poder: a resistência não pode operar apenas como contra-poder de reação. A vida resiste por sua faculdade de inventar e criar; resiste como potência que produz vida, potência de re-subjetivação, potência de reapropriação da singularidade de cada um.[5]

Esse contra-poder é pois um contra-poder constituinte que emerge do interno. A partir desse ponto de vista, pode-se ver o quão rapidamente as situações podem alterar-se e alteram-se. Em que momento o que tenha sido constituído como resistência, passa a operar como dominação? Até que ponto uma experiência consegue manter sua tensão antagônica? A mudança pode ser instantânea e brutal. A experiência afrouxa. Sua potência de invenção dilui-se, dispersa-se. A experiência perde intensidade; torna-se mais lenta. E é capturada por qualquer umas das modalidades ordinárias de dominação. A experiência passa a ser progressivamente reformulada nos termos do poder dominante: na determinação habitual dos sexos, na segmentação dos espaços, na hierarquização desqualificante dos saberes, nas relações desiguais de trabalho...

Não nos podemos contentar com dizer que a experiência foi "capturada". Temos a ver com processo completamente diferente, processo do qual nenhuma experiência poderá desfazer-se. Esse processo considera a reversibilidade permanente das situações em contexto no qual a oposição nasce necessariamente do interno e só se desenvolve em modo constituinte. O que é produzido sempre é suscetível de ser (re)englobado; o que é criado, de ser banalizado. Essa tensão é inerente às condições contemporâneas da resistência.

Nesse livro, exploram-se várias experiências e várias perspectivas; de cada vez, nos esforçamos para destacar o valor da força de resistência e de emancipação que haja em cada experiência, mas, ao mesmo tempo, simetricamente, destacamos os limites e os obstáculos contra os quais cada experiência colide. O trabalho de análise tem de abarcar todo o conjunto do movimento, considerando os efeitos reversos e as vacilações que sempre aparecem. A análise, ela mesma, é tensionada. O que se observa num momento pode mostrar face insuspeita, no momento em que se altere a conjuntura sociopolítica. O que é problematizado sob uma forma, logo tem de ser olhado de outro modo, a qualquer mínima mudança no contexto. A sociologia não escapa, é claro, dos mecanismos de que se serve.

 

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NOTAS

* NICOLAS-LE STRAT, Pascal (2008, outubro) "Expérimentations politiques", Fulenn, Paris. Na íntegra (em francês) em http://www.la-coop.org/index.php?page=experimentations-politiques) e em http://www.experimentations-politiques.fr/), com a seguinte nota: "O livro impresso em papel foi posto à venda; a versão eletrônica é gratuita. A gratuidade é escolha política, para facilitar o acesso de estudantes e trabalhadores precários a nossas publicações. Mas para manter esse projeto editorial, a editora Fulenn e a cooperativa c00p têm de contar com um mínimo de recursos materiais. Comprar o livro em versão impressa garante mais conforto e contribui para manter nossa atividade." Tradução de trabalho, para o português do Brasil, de Caia Fittipaldi (caia.fittipaldi@uol.com.br).

[1] Multitude (Guerre et démocratie à l'âge de l'empire), éd. La Découverte, 2004.

[2] Multitude (Guerre et démocratie à l'âge de l'empire), éd. La Découverte, 2004, p. 333-334

[3] Ibidem, p. 115-116.

[4] REVEL, Judith. Michel Foucault – Expériences de la pensée, éd. Bordas, 2005, p. 134.

[5] Idem, p. 229.



Pascal Nicolas-Le Strat
[Tradução de trabalho, para o português do Brasil, de Caia Fittipaldi]
2008, outubro